OBESIDADE: “eu não como nada, pratico exercícios regularmente e não emagreço”. Entenda porque realmente isso acontece.

 

A obesidade é um problema de saúde e segundo um levantamento do Ministério da Saúde, uma, em cada cinco pessoas no país, está acima do peso. A prevalência da doença passou de 11,8%, em 2006, para 18,9%, em 2016.

Todos os dias nos deparamos com pacientes acima do peso,  apresentando todos os componentes da chamada “síndrome metabólica”: hipertensão arterial sistêmica, dislipidemia, hiperuricemia, hiperglicemia (por resistência a insulina), esteatose hepática e obesidade de predomínio abdominal.

A maioria desses pacientes já se submeteu a inúmeras dietas para redução do peso, algumas com sucesso durante algum tempo, mas com posterior ganho de peso, configurando-se no chamado efeito iô-iô, também conhecido como efeito sanfona, num perde-ganha de peso repetitivo, que hoje sabemos ser extremamente deletério para o sistema cardiovascular como um todo. Até mesmo pacientes submetidos a cirurgia bariátrica ( redução do estômago) acabam ganhando peso novamente, mesmo seguindo dietas de alta privação de calorias.

Este fato se explica por mudanças ocasionadas no metabolismo destes pacientes, que se não tratadas adequadamente, irão perpetuar a síndrome metabólica e todas as suas complicações.

Pacientes que se encontram nesta fase, mesmo se submetendo a dietas de baixíssima caloria, não conseguem emagrecer, pelo contrário, continuam ganhando peso.

Muitas doenças do coração, para serem melhor controladas, precisam de mudanças do hábito alimentar, redução do peso corporal e da prática regular de exercícios físicos.

Os pacientes que atingem estas metas, conseguem reduzir complicações, reduzir o número de medicações, evitar internações, melhorar a qualidade de vida e a sobrevida. Conseguem assim, reduzir a mortalidade por doenças cardiovasculares, de um modo geral

Infelizmente, apesar de inúmeros esforços, o índice de pacientes que atingem estas metas é sempre muito reduzido.

Mesmo a atividade física precisa ser diferenciada nestes pacientes, não é qualquer tipo de exercício que pode ajudar a emagrecer. Exercícios físicos diários de alto impacto, somente elevam mais os níveis de cortisol e acabam dificultando o emagrecimento.

A grande culpada por este quadro é um  hormônio chamado LEPTINA.

A leptina é produzida pelas suas células de gordura – sim, elas não ocasionam apenas estrias indesejáveis – e tem por finalidade manter um canal de comunicação com o cérebro, para controlar o seu metabolismo e o seu apetite.

Quando temos muita comida à nossa disposição e os nossos estoques de células de gordura estão  altos, nosso corpo deve dizer ao cérebro para aumentar o metabolismo, para queimar esse combustível extra e ao mesmo tempo, inibir o nosso apetite, para não ingerirmos mais alimentos, provocando assim, redução dos estoques de gordura e do apetite.

 

Então, agora você pode estar se perguntando:

Se for esse o caso, por que parece que meu metabolismo é tão baixo, apesar de ter um excesso de gordura no meu corpo?

Meu metabolismo não deveria ser alto para que eu possa queimar essa gordura extra?

Isso é o que ocorre normalmente com aquelas pessoas que você inveja por “comerem de tudo e não engordarem nada”.

A verdade é que seu organismo também deveria estar agindo assim e se isso não estiver ocorrendo, então provavelmente você pode ter desenvolvido  a condição conhecida como resistência a leptina.

À medida que você ganha cada vez mais células de gordura, seus níveis de leptina continuam a aumentar no sangue, numa tentativa do seu corpo dizer ao seu cérebro para acelerar o metabolismo e diminuir o seu apetite, ajudando assim, a queimar mais rapidamente a gordura extra.

Porém, a partir de determinados níveis muito elevados de leptina, o cérebro fica “entorpecido” e passa a não reconhecer mais o sinal enviado pela leptina, processo semelhante ao que ocorre no desenvolvimento do diabetes mellitus tipo II em relação a resistência a insulina.

E é quando os sintomas disparam.

Uma vez que seu cérebro não reconhece a leptina, ele começa a pensar que seu corpo está continuamente em estado de fome (interpreta que existem poucas células de gordura, por não estar recebendo os sinais da leptina). Então, seu cérebro diminui o metabolismo de todo o corpo e aumenta seu apetite, para tentar compensar, ingerindo mais e mais alimentos, de preferência os bem calóricos. Entendeu aquela fome desesperada por doce que você sente às vezes?

Então, ao invés de queimar as calorias extras que você comeu, seu corpo armazena tudo como gordura e para piorar ainda, aumenta o seu apetite neste processo.

Isso, em última análise, leva a mais ganho de peso e níveis mais elevados de leptina, tornando o ciclo ainda pior.


Sinais e sintomas da resistência à leptina

A maioria das pessoas que sofre com a resistência à leptina sabe que algo está errado dentro do corpo. Eles observam outras pessoas comendo alimentos, não se exercitando ou vivendo uma vida não saudável e mesmo assim, vivem sem ganhar peso ou mudar seu tipo de corpo. Enquanto isso, os pacientes com resistência à leptina, ganharão peso mesmo se seguirem uma dieta de ingestão de baixa caloria. Agora sabemos o que é, precisamos falar sobre como diagnosticar.

Os pacientes com resistência à leptina tendem a experimentar, pelo menos, dois dos seguintes sintomas:

• Incapacidade de perder peso, apesar de comer uma dieta restrita em calorias e exercitar-se regularmente;

• Ganho de peso constante, geralmente acompanhado de um apetite voraz;

• Episódios constantes de sensação de fome insaciável,  incluindo “ataques à geladeira”,  mesmo  após uma grande refeição;

• Fadiga constante,  sensação de estar com baixa energia, “lentificado”;

• A temperatura do corpo frequentemente baixa  (definida como inferior a 36ºC);

• Piora  dos sintomas do hipotireoidismo (frequentemente acompanha a resistência à leptina).

Estes são os chamados de “aviso” de resistência à leptina. Eles não significam necessariamente, que você tenha o quadro de resistência à leptina, mas se você está sofrendo com mais de 2 dos sintomas acima, então há uma chance alta de você estar com a síndrome.

Gostaríamos de comentar outro fato importante: na medida que aumenta a resistência a leptina, vai se desenvolvendo também, o que se chama de “resistência tireoidiana” ou seja, por acreditar que o organismo está com falta de alimentos, o T4, ao invés de produzir T3, que é o hormônio tireoidiano que também acelera o metabolismo e queima gorduras, passa a produzir maiores níveis de T3 reverso, com efeito oposto ao do T3: diminui o metabolismo e acumula gorduras. Nesta fase, o emagrecimento apenas com dieta, é praticamente impossível. E não tem mais apenas finalidade estética, mas por saúde e qualidade de vida.

Somente após uma análise de todo o perfil bioquímico e hormonal do paciente, o médico tem condições de avaliar o grau de resistência de leptina e as melhores medidas a serem tomadas em cada caso, desde a melhor dieta a ser seguida, até a orientação de exercícios (que pode incluir o “HIIT” – treino intermitente de alta intensidade) que tem demonstrado importante papel na queima prolongada de gorduras e carboidratos, sem interferir nos níveis de cortisol.

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Dr Paulo Sérgio Russo
Cardiologia & Medicina Interna
https://www.drpaulorusso.com/single-post/2017/06/26/EU-NAO-CONSIGO-EMAGRECER

 

Referências
http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1038/oby.2009.228/pdf
– labs.mcdb.lsa.umich.edu/…/Neuroendocrinology%202011.pdf
– li123-4.members.linode.com/…/…on,%20Weight,%20and%20Physiology.pdf
– physiology.elte.hu/…/Leptin%20gut%20and%20food%20intake.pdf
– legacy.lakeforest.edu/…/20_R_Pospiech.pdf
http://www.nhs.uk/news/2007/August/Pages/Ishormonethekeytodesireforfood.asp
– Del Vecchio, F et al in Applications of high-intensity intermittent exercise on metabolic syndromin Journal of Physical Activity and  – Health 18(6):669 · January 2014